Especial

Mirna Bicalho, a jornalista que se reinventou no mundo digital

Mirna Bicalho é daquelas profissionais que carregam a essência do chamado “jornalismo raiz”. Formada em uma época em que os jornais impressos dominavam o debate público, quando as pautas eram discutidas ao redor de mesas de redação e a máquina de escrever ainda era ferramenta indispensável, ela viu — e viveu — uma das maiores transformações da comunicação.

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Nascida na era analógica, Mirna precisou se adaptar a um mundo que mudou rápido. E fez mais do que isso: se reinventou. Aos 49 anos, decidiu recomeçar, assumindo a produção e edição do próprio programa de entrevistas na internet, em um período em que ainda nem se falava em podcasts — hoje tão populares. Nascia assim, em agosto de 2014, o programa Lado a Lado, no YouTube.

Desde então, construiu uma trajetória sólida e consistente. Já são mais de 500 programas gravados, sempre com um propósito claro: registrar histórias.“A audiência nunca explodiu, e nunca tive essa ambição. Para mim, o mais importante é o registro histórico”, afirma.

Seu trabalho é voltado a temas específicos e personagens de Itu e Salto. O público pode não ser massivo, mas é fiel — e, para Mirna, isso faz toda a diferença. “A qualidade do meu público é a fidelidade. Isso me basta.”

Mais do que entrevistas, o conteúdo produzido por ela se transformou em uma espécie de acervo da memória regional.“As pessoas que procurarem informações sobre alguém de Itu ou Salto vão encontrar aqui. Tem gente que fez muito por essas cidades e hoje está idosa. Gosto de pensar que, no meu programa, o legado delas está guardado.”

Amor, parceria e construção de vida

Se o jornalismo é uma paixão, a família é outro pilar fundamental na vida de Mirna. Sua história com o marido, Romeu Bicalho, começou de forma inusitada — dentro de um ônibus. Ela seguia para a faculdade, ele para o colégio. Ele tinha apenas 17 anos. “Foi uma coisa louca”, relembra, sorrindo.

Dois anos depois, estavam casados. Vieram os filhos, os desafios e uma longa caminhada construída com muito esforço. No início, viveram em uma casa cedida pela família, enfrentando dificuldades financeiras enquanto Romeu iniciava a carreira como advogado.

“Foi um começo difícil, mas fomos crescendo juntos. Construímos nossa primeira casa, depois conseguimos melhorar de vida e nos mudamos para o Centro”, conta.

Hoje, após 35 anos de casamento, Mirna fala com admiração do companheiro. “Eu olho para ele e vejo que casei com alguém excepcional. Acho que a admiração mútua é fundamental.”

O casal também celebra a trajetória dos filhos, ambos formados e atuando na área de tecnologia — um deles vivendo na Inglaterra e o outro em São Paulo.
“Nossos pais não tinham nem o ensino médio. Nós avançamos com o ensino superior, e ver nossos filhos chegarem à universidade é uma conquista enorme.”

O jornalismo como chamado

A escolha pela profissão começou ainda na escola, incentivada por uma professora que estimulava os alunos a produzirem um jornal. Ali, nasceu o interesse que guiaria toda a sua vida.

Apesar de inicialmente seguir para a Pedagogia, Mirna percebeu que seu caminho era outro. Mudou de rumo e foi estudar Jornalismo em Piracicaba — a opção mais próxima na época.

Para pagar a faculdade, enfrentou uma rotina intensa: trabalhava como professora em dois períodos em um cenário econômico desafiador, marcado pela alta inflação dos anos 1980.

Sua carreira profissional começou na assessoria de imprensa da Prefeitura de Salto, seguiu por redações de jornais, como o Jornal Cidade (foto acima), em Salto, e Periscópio (foto abaixo), em Itu,  e passou por diversas experiências em comunicação institucional — incluindo Câmara Municipal, instituições de ensino e empresas.

Em determinado momento, decidiu cursar Direito, influenciada pela profissão do marido. Mas percebeu que sua verdadeira vocação continuava sendo o jornalismo. “Eu até achei que advogaria, mas não aconteceu.”

Reinvenção na prática

O retorno ao jornalismo aconteceu por meio da televisão, com o programa “Três Damas e um Curinga”. Com o fim da emissora, Mirna se afastou da área e passou a cuidar do administrativo do escritório do marido — até que percebeu que algo estava faltando.

Foi então que veio o incentivo decisivo. “Ele viu que eu estava triste e falou: compra uma câmera e faz o programa na internet.”

Mesmo sem equipe, sem estrutura e sem experiência com tecnologia, ela aceitou o desafio. Aprendeu tudo sozinha: gravação, edição, produção, agendamento e divulgação.

Hoje, continua conduzindo cada etapa do processo com dedicação e cuidado. Seu estilo é marcado pela escuta atenta, perguntas delicadas e respeito profundo aos entrevistados. “Meu trabalho é servir ao entrevistado”, resume.

Um dos aspectos mais marcantes do trabalho de Mirna é a independência. Até hoje, o programa não conta com anunciantes — uma escolha que garante liberdade editorial.

Com os filhos já adultos, Mirna redescobriu também o valor das amizades. Entre elas, o grupo “Banana Nanica”, for mado ainda na época da escola — vínculos que resistiram ao tempo.

“É bom resgatar essa essência, de quando as relações eram mais profundas”, diz.

Entre memórias, reinvenções e histórias registradas, Mirna Bicalho construiu uma trajetória que vai além da profissão. Sua contribuição não está apenas nas entrevistas que realizou, mas no legado que ajuda a preservar.

Em um tempo de conteúdos rápidos e efêmeros, ela segue na contramão — registrando, com sensibilidade e compromisso, as histórias que não podem ser esquecidas.

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