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Profa. Rita Leite Diniz: uma vida inteira de luta social

Rita Leite Diniz é daquelas mulheres que não passam despercebidas. Aguerrida, direta e profundamente comprometida com as causas sociais, construiu uma trajetória marcada pela resistência, pela educação e pela defesa incansável dos direitos dos professores.

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Atualmente, está Diretora Estadual e Coordenadora Regional da APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), na subsede de Salto. Mas sua história começa bem longe dali.

Nascida em 1959, na zona rural de Milagres, no Ceará, Rita veio ao mundo em um dos anos mais severos de seca no sertão. Ainda muito pequena, foi adotada por um casal amigo da família. Cresceu com mais estabilidade, mas sem perder o vínculo com suas origens — e, principalmente, com as referências que moldaram sua visão de mundo.

Uma delas foi o pai biológico, Antônio José Diniz, militante do Partido Comunista, que chegou a viver na clandestinidade durante o regime militar. “Ele era muito culto. Dava aula de alfabetização à noite, à luz de vela, para agricultores”, relembra.

Vocação, Fé e escolhas

Aos 12 anos, decidiu seguir a vida religiosa e entrou para um convento na Bahia — sem avisar a mãe. Lá, se envolveu em projetos sociais, especialmente de alfabetização.

Permaneceu até os 19 anos, quando precisou sair após a morte do pai para ajudar a cuidar dos irmãos mais novos, uma vez que  sua mãe faleceu quando eles ainda eram bem crianças. Curiosamente, o irmão que a trouxe de volta  para auxiliar com os mais novos, acabou se tornando padre. Rita reforça que sua mãe sempre foi uma mulher de muita fé. Hoje, Rita segue se declarando católica e defendendo a Igreja Católica  libertadora e acolhedora dos mais necessitados.

Recomeços e resistência em São Paulo

A mudança para o interior paulista trouxe novos desafios. Rita e a família foram morar no Jardim Elizabeth, quando a região ainda era praticamente rural. Depois, se estabeleceram no Jardim das Nações, onde vivem há 42 anos

A adaptação não foi fácil. Rita enfrentou preconceito por ser nordestina e por viver em uma configuração familiar considerada “fora do padrão”. “Era tudo muito difícil”, lembra.

Sem conseguir transferência no trabalho na Caixa Econômica Federal, passou por diferentes ocupações — farmácia, clínica, comércio, vendedora ambulante — até conseguir concluir os estudos. Para isso, fez faxina e vendeu produtos na rua, garantindo a própria formação.

Mais tarde, construiu sua carreira como professora, profissão que exerceu por 35 anos, entre educação básica e alfabetização de criança e de adultos.

Entre greves, amor e família

Foi também em meio à luta que Rita encontrou o amor. Em 1987, durante uma greve de bancários em Campinas, conheceu o companheiro com quem construiria uma vida inteira. “Começamos a sair: ir à igreja, às quermesses, às greves, às reuniões do partido”, conta, sorrindo.

Entre pasteis e PT, da parceria vieram três filhos — Max, Maíra e Marçal Júnior — e, mais recentemente, uma neta, Maria Clara, que hoje mora com ela. “Minha neta é brava igual a mim”, diz, entre risos.

Comunidade

Muito antes de ocupar cargos sindicais, Rita já atuava diretamente nas demandas da comunidade. No Jardim das Nações, participou da associação de moradores, ajudou a realizar um censo no bairro e esteve à frente de um abaixo-assinado que resultou na construção de uma escola Prof. José Benedito Gonçalves, a ” Zezito”, onde também trabalhou do início da carreira até aposentar.

Também esteve presente praticamente todos os momentos históricos do país como:   Diretas Já e o movimento Fora Collor, além de inúmeras greves e manifestações.

Política sem troca.

Ao longo da vida, também tentou a carreira política, com candidaturas que não resultaram em eleição. Ainda assim, não vê frustração nisso. “Nunca trabalhei esperando algo em troca”, afirma.

Atualmente, integra o PSOL, alinhada à ala mais radical do partido como foi enquanto era do PT.

Uma vida sem pausa

Descansar não parece fazer parte do vocabulário de Rita. Para ela, o cenário social brasileiro não permite acomodação.

“Não tem espaço para lazer em uma sociedade tão desigual como a nossa”, afirma. “Não obrigo ninguém a pensar como eu, mas acho que não dá para simplesmente se divertir com o país à beira do colapso.”

Ainda assim, nos raros momentos de pausa, gosta de assistir séries e filmes — mas evita noticiários. “É muita mentira nessa grande mídia, eu não aguento ver.”

Entre a vida e a morte

A intensidade com que vive também se reflete nas experiências que acumulou. Rita já enfrentou graves problemas de saúde, incluindo uma infecção generalizada que a deixou três meses na UTI e a fez perder mais de 40 quilos. “O padre chegou a me dar a extrema-unção”, lembra.

Sobre o medo, diz que não teme a morte — mas confessa um receio curioso: temporais. E foi justamente esse medo que, segundo ela, salvou sua vida em uma ocasião, quando desistiu de embarcar em um ônibus que mais tarde se envolveria em um acidente fatal.

Nos últimos anos, também enfrentou acidentes e apenas no ano passado, dois infartos. Ainda assim, segue firme. “Meu filho fala: ‘para de dar sustos na gente’”, conta, rindo.

O que ela sente é que, enquanto houver vida, haverá luta…

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