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Mulheres são maioria no jornalismo. Então por que quase não comandam as redações?

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O jornalismo brasileiro convive com uma contradição difícil de ignorar. O paradoxo aparece nos números e no cotidiano das redações: as mulheres são maioria na profissão, mas continuam longe de ocupar os espaços de decisão.

O Perfil do Jornalista Brasileiro 2021 mostra que 57,8% dos profissionais em atividade no país são mulheres. Contudo, quando se observa quem ocupa os cargos mais altos da estrutura editorial, o cenário muda bastante. Levantamento divulgado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) indica que apenas 21% das redações brasileiras são lideradas por mulheres. O dado, baseado em análise do Reuters Institute sobre 240 grandes veículos de notícias em 12 países, revela ainda um detalhe preocupante: houve uma pequena queda em relação ao levantamento anterior.

Esse descompasso não é exclusivo do jornalismo. Em diversas áreas do mercado de trabalho notamos fenômenos parecidos. A pesquisadora Danièle Yannoulas distingue dois processos que costumam acontecer juntos, porém não necessariamente ao mesmo tempo. Um deles é a feminilização, que ocorre quando cresce o número de mulheres em determinada profissão. O outro é a feminização, que implicaria mudanças mais profundas na valorização da atividade, nas condições de trabalho e na distribuição de poder dentro daquele campo.

Nem sempre uma coisa leva à outra.

No caso do jornalismo brasileiro, os números sugerem que a feminilização aconteceu. A feminização, nem tanto.

Os dados sobre renda ajudam a entender melhor esse cenário. Segundo o IBGE, mulheres recebem em média 20,4% menos que os homens no país. Quando se considera o recorte racial, a desigualdade se amplia: mulheres negras recebem cerca de 39,2% a menos. No setor de comunicação, estimativas indicam cerca de 69 mil vínculos profissionais ativos. Desse total, 44% são ocupados por mulheres, que recebem, em média, 27,9% menos do que os homens empregados na mesma área.

Nada disso significa que as mulheres estejam ausentes do jornalismo. Muito pelo contrário. Em muitos casos, elas estão sustentando projetos que mantêm o jornalismo vivo em lugares onde as grandes redações já não chegam.

No Mais Pelo Jornalismo (MPJ), programa de apoio a iniciativas independentes, 45 dos 156 projetos selecionados foram inscritos por mulheres. O número ainda está longe da paridade, mas já chama atenção quando comparado com a presença feminina nos cargos de liderança das redações tradicionais.

Virar uma publisher não se trata apenas de uma alternativa profissional, mas também de uma forma de autonomia editorial. Quando uma jornalista decide lançar seu próprio site, passa a controlar a pauta, a linguagem, o modelo de negócio e a relação com o público. Em um cenário em que o acesso aos cargos de liderança ainda é limitado dentro das redações, o jornalismo independente acaba se tornando também um espaço de construção de poder editorial feminino.

E quando começamos a ouvir as histórias por trás desses projetos, fica claro que não se trata apenas de estatística.

Fernanda Lima por exemplo, é uma jornalista recém-formada que vive em Guadalupe, na zona norte do Rio de Janeiro. A região aparece frequentemente no noticiário associada à violência e a indicadores sociais baixos. Foi justamente por isso que ela decidiu criar o Voz de Guadalupe, um site dedicado a mostrar a vida da comunidade para além deste enquadramento.

Em Minas Gerais, Kinderlly Brandão , de 26 anos, trabalha em rádio, faz freelas e ainda administra o Expresso Monlevade, portal independente voltado à cobertura de João Monlevade. O projeto nasceu praticamente de forma individual, como acontece com muitos veículos locais no Brasil.

Há também trajetórias mais longas. Rosana Bueno , que hoje dirige o Jornal de Salto, no interior paulista, teve acesso tardio à educação formal. Mesmo assim construiu, ao longo dos anos, um projeto de cobertura regional consistente, voltado a uma cidade industrial de cerca de 120 mil habitantes às margens do rio Tietê.

Em outra frente, Alexandra Itacarambi decidiu assumir a tarefa de recuperar e reorganizar o acervo do Portal Imprensa, projeto fundado por seu pai, o jornalista Sinval Itacarambi. A iniciativa envolve preservar uma parte importante da memória recente do jornalismo brasileiro.

Bemfica de Oliva, primeira mulher trans a trabalhar em uma redação no Ceará, prepara o lançamento do Citei, projeto editorial voltado à cobertura do setor de tecnologia, garantindo mais representatividade e diversidade em cargos de comando de redações.

E existem histórias de insistência, que talvez seja a palavra mais comum quando se fala em jornalismo independente. Como a Jaqueline Falcão, responsável pelo portal Página da Saúde, que viu seu site invadido e retirado do ar e agora, graças ao MPJ, conseguiu retomar seu trabalho.

Quando se observam esses projetos lado a lado, aparece um retrato interessante do jornalismo contemporâneo. Muitas das iniciativas mais persistentes surgem fora das estruturas tradicionais da imprensa.

Isso não significa que a desigualdade de gênero esteja resolvida nesse ambiente. Mas revela que parte da transformação da profissão pode estar acontecendo em outros lugares e não necessariamente dentro das grandes redações.

O desafio continua sendo ampliar o acesso das mulheres aos espaços de decisão. Não apenas na criação de novos projetos, mas também nas estruturas consolidadas do jornalismo.

No fundo, a pergunta que permanece é bastante simples.

Se as mulheres já são maioria na profissão, o que ainda impede que elas ocupem, na mesma proporção, as posições de liderança nas redações?

Artigo escrito originalmente no Linkedin pela CEO do I´Max e idealizadora do Projeto Mais Pelo Jornalismo, do qual o Jornal de Salto faz parte

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