“A culpa é tua, Pai Tietê? A culpa é tua
Si as tuas águas estão podres de fel
E majestade falsa? A culpa é tua
Onde estão os amigos? Onde estão os inimigos?
Onde estão os pardais? e os teus estudiosos e sábios, e
Os iletrados?”
— Mário de Andrade, Meditação sobre o Tietê
Mário de Andrade, se vivo estivesse, talvez hoje voltasse a fazer a mesma pergunta diante das águas escuras do Tietê que chamaram a atenção em Salto na manhã desta quarta-feira (2).
Talvez falasse de um rio de luto. O luto de quem nasceu para ser vida, caminho e encontro, mas que, em tantos trechos, foi transformado em destino de esgoto e poluição.
“A culpa é tua, Pai Tietê?”
Mais de oito décadas depois, a pergunta continua atual. E talvez esteja justamente aí a força dos versos de Mário: ele pergunta ao rio, mas a resposta nunca esteve apenas nas águas.
Nesta quarta-feira, o Tietê apresentou uma intensa coloração escura em Salto, formando uma extensa faixa de água praticamente preta no trecho que atravessa a cidade.
Segundo informações da Prefeitura de Salto, esse tipo de ocorrência pode estar relacionado à abertura de comportas de barragens localizadas na Região Metropolitana de São Paulo, como as de Pirapora do Bom Jesus e Santana de Parnaíba, após períodos de chuva ou em operações para controle do nível da água.
Ainda conforme a administração municipal, a movimentação pode carregar rio abaixo grande quantidade de lama, lodo e esgoto acumulados, contribuindo para a alteração da aparência da água quando esse material chega a Salto.
A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) esteve no local para acompanhar a situação. A Secretaria de Estado responsável pela área também foi acionada.
O episódio volta a colocar em evidência um problema histórico enfrentado pelo Tietê. Embora Salto esteja a dezenas de quilômetros da capital, o município recebe as águas que atravessam a Região Metropolitana de São Paulo e, com elas, parte dos impactos ambientais produzidos rio acima.
Foto: Nelson Lisboa


