Na segunda reportagem da série especial sobre o impacto do Mounjaro e de outras canetas emagrecedoras no cotidiano, a reportagem ouviu a endocrinologista Dra. Gisele Dolores Paschoalin Trindade, que explica o que acontece no organismo de quem utiliza tirzepatida e quais cuidados devem acompanhar o tratamento.
Na primeira matéria da série, uma manicure de 40 anos contou ter perdido 22 quilos em oito meses e relatou mudanças importantes no apetite, além de efeitos como enjoo, fraqueza e dor de cabeça.
Segundo a Dra. Gisele, a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, atua simultaneamente nos receptores de GIP e GLP-1, envolvidos na regulação da glicose, da fome e da saciedade.
“A tirzepatida aumenta a sensação de saciedade, reduz a fome e a ingestão alimentar, melhora a resposta do organismo à glicose e retarda o esvaziamento gástrico, principalmente no início do tratamento”, explica.
O medicamento é utilizado no tratamento do diabetes tipo 2 e também pode ser indicado para determinados pacientes com obesidade ou sobrepeso associado a problemas de saúde.
“Não é uma medicação para quem simplesmente deseja perder alguns quilos. Antes de iniciar o tratamento, é necessário avaliar histórico médico, doenças associadas, medicamentos utilizados, exames e possíveis contraindicações ou precauções”, ressalta a endocrinologista.
Efeitos colaterais e perda muscular
Náuseas, sensação de estômago cheio, refluxo, constipação, diarreia e, em alguns casos, vômitos estão entre os efeitos mais frequentes, principalmente no início do tratamento ou após o aumento da dose.
A Dra. Gisele alerta que dor abdominal intensa, vômitos persistentes ou sinais de desidratação precisam de avaliação médica.
Outro ponto de atenção é a perda de massa muscular durante o emagrecimento. “Durante qualquer processo de emagrecimento, a pessoa não perde somente gordura; também pode perder massa magra”, explica.
Por isso, alimentação adequada, ingestão de proteínas e exercícios de força ganham importância durante o processo.“O objetivo é perder gordura preservando o máximo possível de massa muscular”, afirma.
Peso pode parar de cair
A endocrinologista também explica que, depois de um período de emagrecimento, pode ocorrer uma estabilização do peso, conhecida como platô.
“Isso não significa necessariamente que o medicamento deixou de funcionar. É nesse momento que o acompanhamento é fundamental para reavaliar alimentação, atividade física, composição corporal, dose, adesão e outras condições clínicas.”
Para a Dra. Gisele, o tratamento não deve ser avaliado apenas pelos números apresentados na balança. “O objetivo não deve ser simplesmente perder o maior número possível de quilos. Precisamos buscar redução de gordura corporal, preservação muscular, melhora metabólica, controle das doenças associadas e manutenção dos resultados.”
Alerta para medicamentos de origem desconhecida
A circulação de produtos vendidos como tirzepatida e trazidos informalmente do Paraguai também preocupa. “O problema é utilizar um medicamento cuja origem, autenticidade, concentração, conservação e cadeia de armazenamento não possam ser devidamente comprovadas”, alerta a endocrinologista.
Com a popularização das canetas emagrecedoras, a Dra. Gisele reforça que a tirzepatida não deve ser encarada simplesmente como uma solução estética ou uma “medicação da moda”.
“Estamos falando de tratamento médico de doenças crônicas. A tirzepatida não substitui alimentação adequada, exercício, sono, acompanhamento e tratamento das demais doenças. Ela é uma ferramenta dentro de uma estratégia muito maior.”




